"Há décadas que, por opções ideológicas e populismo eleitoral, os poderes públicos nacionalizam as esmolas.
Metem-se entre pobres e benfeitores, tributando os segundos para ter o mérito de ajudar os primeiros. A fúria regulatória de uma burocracia crescente persegue qualquer obra de solidariedade, enquanto cria alternativas estatais para as estrangular. Foi este suposto Estado-providência que se mostrou insustentável. Agora os poderes públicos têm de encontrar o seu lugar subsidiário numa sociedade equilibrada."
Numa sociedade civilizada, justiça e igualdade não são valores sinónimos ou equivalentes. E se podemos criticar a atitude de quem dá aos pobres para aparecer na fotografia dos jornais, também podemos criticar o Estado que isola e atomiza o cidadão em nome de uma caridade de imposição obrigatória. Não existe maior e mais execrável paternalismo do que o do Estado-monopólio.

«E chegou uma pobre viúva, lançou duas pequenas moedas, no valor de apenas um quadrante. E Ele chamou os seus discípulos e disse-lhes: "Em verdade vos digo: esta pobre viúva deitou mais do que todos os que lançaram no cofre, porque todos deitaram do que tinham em abundância; esta, porém, pôs, da sua indigência, tudo o que tinha para o seu sustento."»
--- S. Marcos, 12,42
Na Igreja Católica sempre existiram duas vertentes ideológicas que, mais ou menos abertamente, se opuseram ao longo da sua existência: os seguidores de Aristóteles e de S. Tomás de Aquino, por um lado, que defendiam o livre-arbítrio do ser humano e a exteriorização das obras do cidadão — o cidadão é livre e revela a sua virtude mediante as suas obras, pela sua acção concreta em prol da comunidade.
Por outro lado, a vertente que decorreu de uma determinada interpretação da ética de Santo Agostinho, interpretação essa que é eminentemente determinista, intuicionista e subjectivista: o que interessa é aquilo que o cidadão pensa e sente acerca da comunidade, e não propriamente as obras que o cidadão faz em prol da comunidade: as obras devem preteridas e secundarizadas na medida em que pouco valem em função do determinismo divino que definiu, prévia e respectivamente, os dignitários da salvação e da condenação. Com o advento da modernidade, este determinismo divino, segundo Lutero e Calvino, transformou-se mais tarde no determinismo absolutista do Estado.
A segunda corrente — a de Santo Agostinho — marcou o Jansenismo, a Escola de Port-Royal e a Reforma luterana: para Lutero, as obras do cidadão em prol da comunidade deveriam ser deixadas ao Estado que subjuga e controla a religião e a comunidade religiosa organizada. Em lugar de se dedicar às obras de caridade, o cidadão deve antes dedicar-se ao trabalho.
A primeira corrente — a de S. Tomás de Aquino — marcou a Contra-reforma católica e significou o triunfo dos princípios da ética de S. Tomás de Aquino no seio da Igreja Católica. Porém, estas duas correntes ainda hoje se degladiam... e, em minha opinião, a corrente tomista é aquela que realmente marca indelevelmente o verdadeiro conservadorismo político: não me interessa grande coisa aquilo que um homem pensa, porque não sou capaz de julgar a sua subjectividade e de aferir a sinceridade dos seus sentimentos. Antes, interessa-me aquilo que o homem faz [o comportamento do Homem].